Marcos trabalha editando vídeos. Ele suspeita que sua esposa, Maria, o tenha traído. Mas a única prova que o rapaz tem é uma imagem; e ela não é tão clara. Este curta de Arthur Assumpção, sem nunca perder de vista suas referências, encontra formas próprias para trabalhar um mote recorrente no cinema: um homem obcecado pela imagem de uma mulher. É um trabalho de conclusão de curso rigoroso, hábil em lidar com seus personagens e articular seu repertório. Permite que vislumbremos um cineasta com grande potencial.
Em Imagens daqui (Arthur Assumpção, 2023), tanto o início quanto o final ocorrem abruptamente. Há, porém, diferenças fundamentais; resultado de um caminho claro, percorrido entre um ponto e outro. Um caminho que produz a imagem, filma a imagem produzida e faz dela personagem principal. É também um percurso que questiona e esgarça essa imagem até aceitá-la enquanto terreno de mistério; até mergulhar em suas profundezas e vê-la se permutar em outros suportes – em virtual, em projeção. Se no plano inicial o rosto de Marcos (Warner Borges) se revela enquanto apresentação de um personagem, no final o movimento é um mergulho em outro tipo de meio. A fabricação da imagem se transforma. Em um, a câmera se limita a encenar os acontecimentos. No outro, uma tela surge como mediadora da cena; real e virtual se deixam contaminar.
No final dos anos 1990, o cineasta Abel Ferrara propunha um olhar acerca da imagem em que um apagamento das fronteiras entre real e virtual seria representado de forma cada vez mais desafiadora – nas sobreposições de planos, na adoção do digital, na perturbação da linearidade narrativa, no comentário dramático partindo do suporte fílmico. Lembremos, por exemplo, dos finais de filmes como Blackout (Abel Ferrara, 1997) e Enigma do poder (Abel Ferrara, 1998). Neles, as projeções mentais e memórias dos protagonistas são trazidas à superfície através de um emaranhado de planos sobrepostos que se chocam e, a partir deste choque, criam algo novo. Imagens daqui realiza um movimento semelhante ao propor, mais do que uma discussão acerca da veracidade da imagem e suas diferentes maneiras de representação, um mergulho operacional na imagem constituída, trazendo para o primeiro plano o que supomos ser uma importante questão de fundo.
Do início, em que vemos Marcos observando atentamente uma parede repleta de telas, somos levados a uma festa. Sobreposição: ao contrário da monotonia com que Marcos trabalha, o conflito inicial nos é exposto de modo a gerar mais dúvidas do que respostas (um casal é formado; homem e mulher no carro; sorrisos, diversão e possível flerte). A partir daí o filme seguirá à risca o sistema que propõe para si. As erupções dramáticas e o movimento narrativo são constituídos a partir da, e para a, imagem composta. O filme lida com a sua progressão como se a saída para um problema dado devesse ser sempre cinematográfica, como um termômetro estilístico narrativo.
Prender-se à sucessão dos fatos é certificar-se de que o percurso que deve sair de A e chegar em C acontecerá – e passará por B. Porém, esta pode ser também uma forma de evitar riscos e manter-se na segurança de um resultado final correto, mas amorfo; ou pior, disforme. Pensar profundamente no estilo de uma narrativa é mais complexo. De cara, notamos o estabelecimento da ação como algo relativamente simples. Um apartamento, um prédio residencial, uma noite de festa, um trabalho, um relacionamento e as possibilidades que se desvelam das duas figuras que acompanhamos.
O cotidiano de Marcos e Maria (Michelle Gabriolli) é filmado com calma, a uma distância que permite observá-los privilegiando a movimentação dos corpos no plano, a profundidade de campo, as distâncias dos elementos em quadro (aproveitando muito bem o espaço delimitado de um apartamento). As imagens, as projeções da aflição de Marcos em seus diversos suportes, atravessam o estilo do filme como a contraparte desse cotidiano, como algo em estado de ebulição. São elas que apontam as crises e caminhos possíveis na trajetória do casal. Durante suas interações no apartamento há poucos cortes. Algumas correções sutis de câmera mantém um enquadramento que se modifica a partir da localização dos atores dentro do quadro: um se distancia para lavar a louça, outro se levanta para pegar água na cozinha.
Vêm da imagem (de uma câmera de segurança) o estremecimento do relacionamento e a dúvida (da traição, do que quer que tenha acontecido). E é de seu tensionamento que o presente narrativo será atingido. O confrontamento (“porque você me traiu?”) de Maria por Marcos finalmente ocorre, mas sua fala só é dita após um zoom (no copo de água sendo enchido) interromper a continuidade expositiva daquele ambiente.
Após a crise deflagrada, resta a Marcos se afogar em paranoia e na perda de confiança, materializada na obsessão pelas imagens que restam e alimentam esse estado crítico de confusão mental. Para Marcos, não dar mais pé do mundo real é se perder nas imagens da câmera de segurança de seu prédio, dos televisores de seu trabalho, das projeções de sua memória (uma suposta traição, uma briga); mas também nas imagens de um passado feliz (superexpostas, rudimentares, produzidas por uma câmera caseira).
Mas não se pode esquecer que as imagens sempre mentem, escondem camadas infinitas, como nos mostraram Alfred Hitchcock, Dario Argento, Michelangelo Antonioni, Larry Cohen, Brian De Palma… ou mesmo Abel Ferrara, novamente ele, que executa sua vocação hitchcockiana em uma obsessão própria e escopofílica, empregada com consciência rara neste curta-metragem de Assumpção. Trata-se de uma espécie de pérola que nos faz querer voltar ao início e perscrutar o ecrã, imitando o seu protagonista hipnotizado pelos televisores, ou assombrado pela memória recente disparada e transformada pela força de uma imagem.
Imagens daqui lida com um alicerce referencial muito denso e complexo, mas escapa de possíveis armadilhas, passa longe da reverência receosa ou da citação desmedida e acredita no material produzido. Como em outras experiências bem-sucedidas na história do cinema, busca examinar o poder da representação cinematográfica: o que nos resta é o filme, o mistério de suas imagens e o efeito impactante de sua investigação.
Para esta quarta sessão on-line dos Estranhos Encontros, entrevistamos Arthur Assumpção. Ele é um roteirista e diretor de ficção e publicidade nascido em São Paulo. Sua filmografia de ficção é composta por três curta-metragens, que foram exibidos em alguns festivais pelo Brasil: As compras de Suzanne (2021), Raiz do grito (2022) e Imagens daqui (2023). É principalmente sobre este último filme que conversamos com Arthur, já que é o curta que está em cartaz nesta sessão 04 do site. Imagens daqui esteve no Festival Primeiro Plano 2023 (Juiz de Fora, MG), no Festival de Cinema Escolar de Alvorada 2023 (Alvorada, RS) – no qual Warner Borges (Marcos) levou o prêmio de melhor ator – e no IV Festival Beta (Rio de Janeiro, RJ) – em que recebeu os prêmios de melhor roteiro e melhor filme de ficção.
Como de costume, nas linhas a seguir você poderá ler sobre o processo criativo do filme e outros detalhes seus, mas não só. Poderá também acessar, mais detidamente, algumas das vozes e imagens que soam e ressoam para além da mente de Marcos: estão sobrepostas por todo o tecido fílmico.
O grande conflito inerente às imagens está na relação entre a realidade do fato registrado – pois uma câmera registra alguns instantes de realidade – e os significados e sentidos que uma imagem pode ter. Marcos vê sua esposa chegando com um rapaz ao prédio onde moram, o que significa que ela chegou acompanhada, mas não necessariamente que o tenha traído. Num mundo repleto de imagens, temos a tendência de nos sentirmos muito próximos de acontecimentos que se desenrolam por todo o mundo. Isso acontece devido aos meios de informação e ao mesmo tempo em que temos a inegável incapacidade de entendê-los por completo, o que não impede que esses acontecimentos influenciem nossas vidas direta e indiretamente.
Dito isso, acredito que a dimensão política do filme envolve diretamente o universo das imagens históricas, que estão no nosso cotidiano e se tornam os símbolos da história humana a partir de quem domina os meios de difusão desses registros. A tensão entre as imagens de arquivo e as captações do filme está no espectador que vai conectá-las como bem entender, procurando por narrativas e significados a partir de sua compreensão do mundo e do próprio filme. Entre os temas citados pelas palavras e os objetos das imagens, estão: petróleo, meios de transporte, comércio exterior, política internacional e as torres gêmeas… E tanto o protagonista quanto o espectador são confrontados por esse universo misturado à história de uma relação romântica, relação da qual emerge uma tensão interessante ao filme. Na experiência humana, vivemos conflitos internos e assistimos a conflitos históricos; a relação entre esses dois tipos de tensão pode ser vista através de imagens da memória pessoal e de registros históricos. O mal-estar derivado dessas grandes confusões é um terreno que me interesso muito por explorar.
Eu acredito que a sensação de uma obsessão com a imagem da mulher, no caso do Imagens daqui, se dá muito por conta da atuação e presença magnética da Michelle Gabriolli. Ela tem um rosto muito bonito, que flutua entre o doce e o peçonhento de um jeito fantástico. Isso cria no espectador um interesse muito grande por ela, de forma que qualquer um entende o porquê de o Marcos estar tão obcecado. Ele tem uma obsessão, que também é muito frequente no cinema, pelo registro; ele se aproxima de alguns personagens, como os de Um tiro na noite (Brian De Palma, 1981) e Blow-Up – Depois daquele beijo (Michelangelo Antonioni, 1966)… todos procuram respostas subjetivas em um registro material limitado. Eu acho que, de certa forma, não se preocupar com a carga histórica desses temas é o melhor jeito de explorá-los, afinal existem filmes de que eu gosto, mas o Marcos é obcecado pela Maria. E se ela virar um pastiche das mulheres de Um corpo que cai (Alfred Hitchcock, 1958) e do Obsessão (Brian De Palma, 1976), ou uma versão de Kim Min-Hee ou Gena Rowlands, ninguém vai se atrair pela imagem dela. Eu não encarei como um desafio retrabalhar uma ideia tão explorada porque não a escolhi pensando nisso; os temas que eu gostaria de explorar são os mesmos que muitos cineastas já abordaram por uma consonância do interesse pela produção de imagens. Se essa ideia foi visitada tantas vezes é porque tem muito a ser extraído dela, sobretudo no mundo contemporâneo. E espero que no futuro essa ideia continue a ser revisitada, pois o contexto da produção de imagens será, certamente, outro – o que vai exigir uma reelaboração por parte dos cineastas que a abordarem.
Existe uma separação formal entre o “universo das imagens” e o cotidiano do casal, principalmente no que se refere ao ritmo. Definitivamente foi um caminho tomado para que o dia a dia dos personagens pudesse ser alterado pela tensão de um grande conflito. Gosto muito de filmes e livros que trazem o cotidiano e conflitos simples, então acho que eu quis me aproximar um pouco disso nos momentos mais corriqueiros da vida do casal. É nesses trechos cotidianos que quem assiste pode encontrar mais algumas evidências de quem são os dois e o que os trouxe até este recorte que está sendo filmado. A cena do café da manhã é um grande exemplo disso. Ali foi incrível ver o trabalho dos atores, Michelle e Warner Borges, para “esconder” as muitas e muitas coisas que eles queriam trazer pros personagens. Minha participação nesse momento se dá na linguagem de cinema; ao filmar este trecho em um único plano para que a encenação possa tomar conta, quase como se a câmera tivesse sido esquecida ali na cozinha, gravando. Eu tenho o Robert Altman como principal referência para minha decupagem de ficção, mas com uma forma um pouco mais rígida do que a de seus filmes. Acredito que esses planos mais abertos valorizam demais a encenação dos bons atores, que usam o corpo todo para representar seus personagens. Assim podem confiar em takes maiores para entregar o que querem em cada cena, o que definitivamente Warner e Michelle conseguiram fazer muito bem.
O filme foi pensado a partir da cena final. Eu queria experimentar uma montagem entre imagens de arquivo e imagens captadas; queria criar um universo de memórias do personagem, por isso escolhi um conflito que pudesse gerar a angústia do Marcos. Mas, originalmente, o espectador saberia se a traição aconteceu ou não, o que foi deixado para trás a fim de criar uma identificação maior com as reflexões do Marcos. A montagem dos meus filmes de ficção, por enquanto, encontra menos possibilidades de mudanças porque eu filmo com poucos planos e tenho, na minha cabeça, muita clareza do que eu quero fazer com o que filmo. Mas, é claro, sempre existem novas ideias nesse processo – muito por conta do talento dos montadores e das opiniões referentes a cortes anteriores ao final. Dito isso, a principal mudança da montagem no Imagens daqui foi uma grande redução na cena da discussão (cortamos algumas falas); houve também uma grande alteração na estrutura inicial, em que uma montagem paralela intercalaria o trabalho de Marcos e o de Maria. Essas mudanças no filme são o resultado da experimentação – não acredito que esse filme seja experimental, mas qualquer realizador de cinema experimenta opções de planos e cortes até encontrar aqueles efeitos e artifícios que mais o agradam. E esse processo de busca por imagens e seus significados é o mais interessante do cinema. De certa forma, também é uma montagem o que Marcos tenta fazer com as imagens de sua memória para encontrar respostas aos seus pensamentos.
Dos projetos em que trabalhei, as ideias sempre surgem de uma única cena que se expande para uma construção maior – como foi o caso do Imagens daqui –, ou de uma estrutura que vai organizar o todo e centralizar a construção de várias ideias diferentes. O Imagens surgiu da cena final, que é inspirada no Enigma do poder (Abel Ferrara, 1998) e tem a escolha do conflito trazida do Drive my car (Ryusuke Hamaguchi, 2021) – dois filmes dos quais gosto muito. Mas, de maneira geral, acho que meus projetos são construídos para justificar pequenas coisas que eu gostaria de experimentar em uma ou duas cenas, ou uma estrutura narrativa geral que organiza diferentes ideias juntas. Porém, durante o processo de produção desse entorno, eu continuo criando em cima das outras cenas e começo a gostar delas tanto quanto das embrionárias.
Acho que muitas coisas diferentes me trouxeram ao cinema, mas o fator principal foram os filmes de que eu gostava. Desde criança eu sempre assisti a muitos filmes e acho que, naturalmente, comecei a me imaginar fazendo alguns deles também. O processo de produzir um filme é, além do mais, um grande incentivo, pois sempre que filmo qualquer coisa encontro ideias que gostaria de experimentar melhor, cenas que gostaria de filmar… e imagino personagens para histórias futuras. Eu quero continuar fazendo filmes independentes, mas no futuro gostaria de encontrar entradas dentro de grandes produções. Acho que os dois tipos de produção podem funcionar em paralelo. Admiro muitos cineastas que foram “contrabandistas” e conseguiam realizar seus projetos de cinema por dentro de contextos de produção comercial, como Brian De Palma, Carlos Reichenbach, Jean Garret, Robert Altman. Acho que me faria muito feliz seguir um caminho como esse e acredito que meus projetos poderiam se encaixar em formatos semelhantes. Mas a grande dificuldade do cinema para um realizador brasileiro é a “carreira paralela”, onde são necessários trabalhos em outras áreas da produção audiovisual – e muitas vezes outras áreas no geral mesmo – para sobreviver. Isso é um grande obstáculo no que se refere ao tempo e energia necessários para pensar o cinema de ficção, escrevê-lo e produzi-lo. No momento tenho trabalhado com publicidade, mas ainda este ano [2024] vou filmar um novo curta-metragem de ficção, além de estar trabalhando em um livro. Acredito que seguir esses caminhos paralelos é o que poderia me trazer satisfação profissional.