Reconciliados

Reconciliados

Um afinador de pianos é chamado para a importante função de afinar um raro exemplar numa catedral. Não sabia, porém, que o instrumento teria coisas a lhe revelar. Filmado em 35mm, este curta de Pedro Faissol apresenta um trabalho de encenação rigoroso. Os movimentos de câmera, o andar e falar dos atores e a sonorização mostram um cinema preocupado e consciente do peso de cada detalhe colocado em tela.

folha da sessão por Fernanda Albuquerque de Almeida

“Hoje eu fui chamado para afinar um piano na catedral. Saí de casa com a informação de que se tratava de um piano muito antigo, de procedência desconhecida. A seu respeito, sabia-se apenas que ficou por muito tempo parado num depósito em Jacarepaguá…”

Assim começa Reconciliados, curta-metragem de 2013 roteirizado e dirigido por Pedro Faissol, produzido pela Raio Verde Filmes.

Contemplamos, então, a imagem em preto e branco de uma mão que se abre com a palma voltada para cima, em um gesto de receptividade, e que depois sinaliza a solicitação de um táxi. O que vem a seguir?

O trajeto de um homem (interpretado por Luiz Alberto Conceição) até seu destino. O vazio o acompanha. Como pano de fundo, a cidade conta com passantes ligeiros e sons discretos, que compõem uma paisagem visual e sonora paradoxalmente leve e pesada. 

Depois de sair do táxi, ele segue rumo à catedral a pé. Desloca-se por uma firme escada de concreto, cujas fissuras possibilitam brotar uma delicada vegetação ao vento. Alguns pombos também vagueiam pelas escadas, enquanto o homem passa indiferente aos singelos anúncios de vida pulsante. Os sinos soam.

Ele chega ao seu destino. Pequeno corpo em frente aos imensos blocos da construção; é como uma vida cansada. Vazio e silêncio são interrompidos por uma nota de piano que nos leva para dentro da catedral. Lá o homem afina o instrumento musical, que lhe devolve o toque com o som. 

Seu trabalho logo está feito e é devidamente recompensado por uma mulher (interpretada por Maria José Barroso), que também toca o piano. Mas há algo além.

O homem volta absorto para casa. No caminho, o ambiente em seu entorno pensa com ele. No lar, a bebida lhe conforta, e as ideias fluem. O mundo ganha cor, ainda que em tons amarronzados. 

Agora está sentado em uma poltrona. O tique-taque do redondo relógio pregado na parede anuncia a passagem do tempo. Igualmente sentada, uma mulher vestida de preto (interpretada por Helena Castro) o interpela com o olhar, que ele responde com a fala. Será ela uma alucinação? Ou talvez a morte, sempre à espreita?

O homem fala sobre seu dia e o antigo piano na catedral, que lhe insuflou vida. Em meio à melancolia e ao ramerrão cotidiano, algo irrompeu e o arrebatou. A voz do piano respondeu o silêncio de seu coração e, assim, surpreendendo-lhe, possibilitou uma reconciliação.

Há algo de especial nesse acontecimento – como um estranho, mas bom encontro. Com quem? Consigo, com o outro ou mesmo com Deus. 

Representações do sagrado participam da história da arte desde a Antiguidade, a exemplo das esculturas de deuses pagãos, mas é no dito Barroco, relacionadas ao cristianismo, que elas ganham especial relevância. Uma das obras mais conhecidas é O êxtase da Santa Teresa (entre 1645-52), de Gian Lorenzo Bernini, altar feito para uma pequena igreja em Roma em homenagem a esta freira espanhola do século XVI. Segundo Ernst Hans Gombrich, Santa Teresa teria vivenciado um momento de arrebatamento celestial, “quando um anjo do Senhor varou-lhe o coração com uma flecha dourada flamejante, enchendo-a de dor, mas com imensurável beatitude”. É esse instante que Bernini visou representar. Tudo nessa bela escultura de mármore foi realizado para destacar a intensidade do acontecimento. As expressões faciais do anjo e da Santa, a posição e o detalhamento dos corpos, o drapeado do tecido e as figuras no conjunto se contorcem e rodopiam em um arranjo cênico que busca evocar um sentimento análogo de êxtase no espectador. 

Em Reconciliados, algo dessa ordem parece despertar no encontro entre o protagonista e o piano, cuja alma lhe insufla vida ou, melhor dizendo, prazer de viver. 

Esse prazer pela vida pode ser compreendido como o amor, que se vincula à experiência religiosa, mas também a extrapola. É isso que ensina João Guimarães Rosa em Grande Sertão: Veredas (1956). Em tom confessional, o protagonista Riobaldo nos conta acerca de seu sentimento por Diadorim: “Aquilo me transformava, me fazia crescer dum modo, que doía e prazia. Aquela hora, eu pudesse morrer, não me importava.” A intensidade do amor, assim como do êxtase religioso, talvez possa ser sintetizada em um termo que aparece no livro: “turbulindo”. 

Dor e imensurável beatitude em Santa Teresa, dor e prazer em Riobaldo; esse misto aparentemente paradoxal não corresponderia, em última instância, à própria vida? Vida, amor e êxtase parecem fazer coexistir tempestade e bonança. Nas palavras de Riobaldo, o amor seria, então, “um pouquinho de saúde, um descanso na loucura”. Ou, ainda, uma espécie de sensação de plenitude, já que, no final das contas, “amor é a gente querendo achar o que é da gente”.

Reconciliados faz sentir que reconciliar-se consigo e com outros pressupõe o esvaziamento. Isso porque apenas o vazio convida à habitação, e é desta forma que o fim remete ao início. A reconciliação depende da mão aberta em gesto receptivo. A o quê? Aos encontros com o desconhecido, em si e no outro.

 

Obras mencionadas pela ensaísta

GOMBRICH, Ernst Hans. A história da arte. Tradução de Cristina de Assis Serra. Rio de Janeiro: LTC, 2013.
ROSA, João Guimarães. Grande Sertão: Veredas. Ficção completa em dois volumes, v. II. Editora Nova Aguilar, 1994.

 

Fernanda Albuquerque de Almeida é Doutora em Estética e História da Arte pela USP e professora de Artes e Audiovisual na FMU FIAM FAAM.

Para esta quinta sessão on-line dos Estranhos Encontros entrevistamos Pedro Faissol, responsável pela direção, roteiro e produção de Reconciliados (2013), nosso curta-metragem em cartaz. Além de ser sócio-fundador da produtora Raio Verde Produções Artísticas (2013-17) e atuar como roteirista, diretor e produtor de curtas-metragens, Pedro é acadêmico. Graduou-se em Comunicação Social (habilitação Cinema) pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e é Doutor e Mestre em Meios e Processos Audiovisuais pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP), com período na Université Sorbonne Nouvelle – Paris III. Atualmente é professor adjunto de Cinema e Audiovisual da Universidade Estadual do Paraná e docente permanente do Programa de Pós-Graduação em Cinema e Artes do Vídeo (PPG-CINEAV/Unespar). É também co-líder do Grupo de Pesquisa EIKOS – Imagem e Experiência Estética (CNPq/Unespar) e coordenador do projeto de extensão “Cineclube Cerejeira”. 

As cuidadosas respostas a seguir nos trazem de volta o jogo de sons e silêncios vivido e incorporado pelo afinador de pianos. São uma oportunidade de ler mais sobre o contexto de produção do filme e os caminhos de seu realizador.

  1. Reconciliados parece ser fruto de um contexto muito específico, que nos é desconhecido senão por fragmentos; sabemos que a Raio Verde tem outros curtas e produziu mostras (como a Mostra Fritz Lang no Centro Cultural Banco do Brasil Rio de Janeiro em 2014) e que, além dela, outras iniciativas com preocupações parecidas nasciam naquela época. Você enxerga o filme como desencadeamento desse cenário? Poderia falar mais sobre esse contexto?


O contexto deste curta passa muito pela experiência universitária. O curso de graduação em Cinema na UFF permitiu, em primeiro lugar, a amizade e o encontro com o grupo que integrou a equipe do filme. Foi com esse grupo de amigos, e muito a partir dos diálogos que travávamos à época, que veio a ideia do filme. A cinefilia era também um desdobramento muito natural da vivência universitária. Acho que, no período da graduação (2006-2010), defini os valores do que hoje entendo como a minha cultura cinematográfica. Claro que sempre estamos descobrindo filmes novos, expandindo o nosso horizonte estético e movimentando o nosso juízo, mas o período de formação é algo que me parece importante. E agora eu percebo, olhando para este curta, que ainda hoje carrego muitas das preocupações que eu tinha naquela época. 

A universidade também nos permitiu filmar em 35mm. Foi um aprendizado bem legal para todo mundo da equipe. Quando rodamos o curta, em 2010, já não era comum filmar em 35mm – e acho que para a maior parte da equipe este filme era a primeira experiência com o suporte analógico. Nesse sentido, lembro que o fotógrafo do filme, Mario Cascardo, ficou empolgado com a oportunidade e estudou bastante as especificidades da câmera e das lentes para que tudo corresse bem. E acho que deu muito certo. Gosto bastante da textura da imagem em preto e branco. A película também exigiu muitos ensaios com o ator e uma pré-produção cuidadosa. Tínhamos que ser muito precisos nas filmagens: dispúnhamos de oito latas de negativo para um filme de 13 minutos, o que dava uma média de 2:1. 

A produtora Raio Verde foi uma iniciativa, já no final da graduação, de um grupo de amigos (além de mim, Calac Nogueira, João Gabriel Paixão e Joice Scavone) que queria trabalhar com cinema, realizando filmes e produzindo mostras. Fizemos alguns curtas universitários, entre os quais o Reconciliados, mas sem dúvida a mostra Fritz Lang: o horror está no horizonte foi a grande empreitada da produtora. Olhando agora, em retrospecto, percebo que era o final do que se poderia chamar de uma “era de ouro” do CCBB e da Caixa Cultural, período em que ainda se investia um orçamento interessante na realização de mostras autorais (mas não apenas), muitas vezes exibindo filmografias completas em película. Acho que foi grande o impacto que algumas dessas retrospectivas teve na formação da cinefilia carioca. Guardo boas lembranças, por exemplo, das mostras de Yasujiro Ozu, John Cassavetes, Agnès Varda, Alain Resnais, John Ford, Marguerite Duras, Stan Brakhage etc. Sessões cheias, debates interessantes, boa repercussão crítica, enfim. Eu, particularmente, não cheguei a me envolver diretamente com a mostra do Fritz Lang, mas ainda bem que os meus colegas tiveram esse fôlego. Acho que foi importante.

Por fim, em relação ao contexto desta época, acho fundamental o papel que a crítica desempenhou na nossa formação. Nesta época, a crítica era um diálogo constante. Líamos muito o que se escrevia em blogs e revistas on-line de crítica cinematográfica. A influência que a Contracampo teve em nossa formação, por exemplo, era equivalente à da própria universidade. É difícil comparar com o papel da crítica hoje em dia, mas naquela época ela desempenhava um papel formativo mesmo. Era um período, talvez intermediário, entre a crítica impressa e a posterior dissolução da atividade crítica em redes sociais. 

  1. Um filme em 35mm, uma encenação bastante rigorosa, um afinador de pianos: Reconciliados nos parece repleto de escolhas peculiares, um objeto esquisito no melhor dos sentidos. O que te levou a fazer esse filme? 


Em primeiro lugar, eu acho importante dizer que, sobretudo no contexto de um cinema universitário, amador, nem tudo é previsto antecipadamente. Há muito descontrole e acidente entre a concepção do filme e o resultado em si. Eu não saberia dizer, por exemplo, até que ponto esta estranheza era premeditada. Lembro de ter planejado, para a primeira parte do filme (todo o segmento em preto e branco), um ritmo cerrado, maquinal. Ação, ação, ação. Robert Bresson, afinal, era a grande referência. Mas, revendo agora o filme, eu percebo algo até mesmo do Ozualdo Candeias, que também era uma fixação minha naquela época. Refiro-me a uma certa imediatez, algo meio visceral (para não dizer primitivo) na relação entre figura e fundo. Na cena da caminhada para casa, após a afinação do piano, lembro que eu tinha como referência o curta O castelo do poeta (1959), do Joaquim Pedro de Andrade. Contudo, talvez pela construção artificial da ambiência sonora, o filme termina por gerar um efeito bem diferente do tom prosaico no filme de Joaquim Pedro. O que se sobressai é a estranheza, a clausura. Uma caminhada em huis clos na qual a cidade filmada parece um mundo à parte, sem qualquer relação com a realidade.

Mas nem tudo foi acidental. Desde a concepção do filme, tentamos seguir uma ideia que me era muito cara naquela época: o princípio de que toda e qualquer abstração só poderia ser alcançada a partir de um contato efetivo com a matéria. Era preciso, nesse sentido, concentrar os esforços numa lógica de confinamento, rigor e contenção. Esta energia represada seria liberada apenas em momentos específicos. Estas ideias, para mim, eram inseparáveis do que eu entendia à época como um princípio bressoniano. Nesse sentido, a ênfase na ação do personagem, o movimento de câmera, a duração dos planos, assim como a concretude do próprio ofício do afinador de pianos, enfim, tudo deveria seguir essa lógica materialista. Lembro de ter ficado feliz quando descobri, numa pesquisa que fiz enquanto escrevia o roteiro, a existência de um suporte de madeira no piano chamado “alma”. Inseri essa expressão no monólogo do filme pois, para mim, o filme tratava disso.

Outra coisa importante para mim era que o filme deveria ser separado em duas partes. Na primeira, acompanharíamos a ação, os gestos, o movimento. Tudo seria visto e ouvido de uma forma objetiva. O ritmo da montagem daria o tom desejado. Num segundo momento, teríamos acesso apenas à palavra. A restrição do corpo seria compensada pela centralidade absoluta da oralidade. Estava na base do projeto trabalhar de forma complementar, embora separada, com esses dois regimes de encenação. 

  1. Em Reconciliados vemos muito da ação se inaugurar e desenrolar por meio do som; temos a sensação de escutar tudo o que vemos em tela. Como escolheu os momentos do filme que foram sonorizados e aqueles que não? Como percebe o papel do som no curta?



Também acho que o som desempenha um papel muito central neste filme. O som dos passos e das portas se abrindo era tão importante para mim quanto o das notas do piano. Como todo o desenho sonoro do filme foi construído na pós-produção, eu e o Thiago Sobral, que editou o som do filme, tivemos muita liberdade para construir o som a partir das imagens. Tive a sorte de ter o Sobral na equipe, que fez um trabalho que considero excelente. Não me lembro se isso foi planejado na época, mas hoje eu percebo que a concepção sonora consiste em ressaltar os ruídos, assim como os sons produzidos pela ação humana, e reduzir a quase zero o som ambiente. Talvez tenha sido sobretudo aí, na edição de som, que o filme foi ganhando esta estranheza particular.

Para a cena da afinação, lembro que conversamos sobre o desejo de produzir um efeito hipnótico. Não sei se isso foi alcançado, efetivamente, mas vejo uma adequação entre esta intenção e os procedimentos formais adotados (os enquadramentos, o travelling para frente, a repetição dos movimentos, a frequência das notas). Uma das apostas que fizemos no trabalho com o som foi em relação ao uso expressivo do silêncio. A ideia era trabalhar com certa noção de fantasmagoria a partir do silêncio (ou melhor, a partir do contraste entre o som das notas e o silêncio). No monólogo final, o protagonista diz que parou de afinar pois começou a ouvir vozes. No entanto, em momento algum essas vozes são objetivamente ouvidas pelo espectador. A aposta então era essa: sobrepor o que percebemos na primeira parte com o que o afinador diz ter percebido na segunda.

  1. Você poderia comentar um pouco sobre o quanto o filme mudou ou não entre as ideias iniciais e o processo de filmagem e montagem? 


Infelizmente, sou um pouco desmemoriado. Não me lembro tão bem das transformações sofridas ao longo do processo. Para compensar a minha má memória, sou organizado e encontrei os arquivos das versões iniciais do roteiro. O título era “O fantasma”. Desde o início, já se tratava de um afinador de pianos. A estrutura repartida em duas partes (ação e relato oral) também já estava presente. Contudo, a ação principal não era a afinação em si, mas o suicídio de um anônimo que o afinador presenciara a caminho da catedral. E, no final, não era um monólogo, mas sim um diálogo mais naturalista entre o afinador e sua filha. Pelas datas dos arquivos, vejo que o intervalo entre a primeira e a última versão do roteiro foi de aproximadamente cinco meses. A realização do filme estava atrelada a uma disciplina do curso. Reconciliados foi o meu Trabalho de Conclusão de Curso. Tínhamos um prazo a cumprir. Prazos sempre me ajudam a dissipar as dúvidas e escolher um caminho.

O que eu gostaria de comentar é algo que surgiu ao longo do processo de montagem. O montador do filme foi o João Gabriel Paixão. Como filmamos em película e o material bruto era bastante enxuto, não tivemos muitas opções disponíveis para a escolha das tomadas. No entanto, lembro de ter travado com o João uma discussão interessante sobre a importância do enquadramento. Depois que o afinador para de afinar o piano e fica parado em silêncio, há um corte que considero equivocado. Vamos de um Plano Conjunto para um Plano Próximo. Esta escala mais próxima, quase um close, promete um efeito de interiorização do personagem, como se o espectador estivesse colado na perspectiva subjetiva do afinador. Contudo, essa promessa não poderia ser cumprida, pois o filme opera justamente na diferença entre a percepção do afinador e a nossa. Se fosse possível voltar atrás, gostaria de ter incluído um Plano Geral do afinador parado em silêncio. O plano aberto revelaria o espaço, que é o meio pelo qual as vozes circulam e o mistério se instala, enquanto o plano fechado tende a psicologizar o personagem. Foi na ilha de edição, conversando com o João, que me dei conta disso. Já era tarde demais, pois não tínhamos filmado este plano aberto, mas guardo comigo essa lição.

  1. Quanto a processo criativo: como você costuma organizar as ideias no início de um projeto?


Não tenho tanta experiência com a realização. Após ter feito três curtas universitários, passei mais de dez anos sem filmar nada. Durante o mestrado e o doutorado eu me afastei bastante da realização. Só agora, muitos anos depois, posso dizer que estou voltando a fazer filmes. Feita esta ressalva, eu diria que o início da ideia é o momento mais importante para mim. É na concepção do projeto, antes mesmo da escrita do roteiro, que passo mais tempo a pensar sobre o filme. Nessa etapa eu faço basicamente anotações. Na época do Reconciliados, eu tinha um caderninho onde escrevia manualmente as ideias; agora eu envio e-mails para mim mesmo do celular. Mas é basicamente o mesmo processo, sempre em duas etapas: a da criação em si e a da edição. Primeiro faço essas anotações fragmentadas e dispersas, depois eu tento organizá-las (trazendo-as para um arquivo único e selecionando o que faz sentido e o que já não faz). Em seguida, quando a ideia começa a ganhar robustez, começo a escrever o roteiro e depois a decupagem. Para a criação de um curta-metragem, sinto que ainda é possível uma dose de desorganização. Não diria isso para o desenvolvimento de longas-metragens.

  1. O que levou você ao cinema e o que incentivou/complicou sua vontade de fazer filmes? Pretende continuar a filmar?

Antes de fazer a graduação em Comunicação Social – habilitação Cinema, eu fiz Engenharia de Produção, também na UFF. Eu até gostava das aulas, mas criei um desgosto pela área quando comecei a estagiar. Era um estágio considerado bom, na Vale, mas achei o mundo corporativo muito estranho. Foi um período bem difícil para mim. Entrei em crise mesmo. Depois de quatro meses, pedi demissão e decidi fazer o vestibular novamente, desta vez para o curso de Cinema. Eu já gostava muito de cinema e decidi seguir esse caminho. Foi uma das decisões mais importantes da minha vida. 

Quando ingressei no curso (de Cinema), a ideia era fazer filmes. Ao longo da graduação, como disse, me juntei a um grupo de amigos – grandes amigos – com quem fiz vários curtas. Nos meus filmes, eu fazia sempre produção, roteiro e direção. Nos filmes dos colegas, atuava na produção, na assistência de direção e onde mais fosse preciso. Guardo boas lembranças desta época. Fazer filmes com os amigos era entusiasmante, mas eu não me via atuando profissionalmente em sets de filmagem. Quando comecei a fazer o mestrado (Meios e Processos Audiovisuais na USP), me mudei do Rio para São Paulo e fui me afastando cada vez mais da realização. Tomei gosto pela pesquisa (no mestrado, estudei o cinema do Eugène Green) e logo engatei no doutorado (onde desenvolvi uma pesquisa sobre a representação do milagre no cinema). Durante os anos em que estive em São Paulo (2011-2018), participei de pouquíssimos filmes. Cheguei a submeter alguns projetos de curta-metragem para editais de fomento e participei de um laboratório de roteiro de longa-metragem, mas os filmes nunca saíram do papel. 

Curiosamente, depois que me mudei para Curitiba e comecei a atuar como professor no curso de Cinema e Audiovisual da Unespar algumas portas se abriram para mim e estou tentando retomar o contato com a realização. Aqui na cidade há uma tradição interessante de cinema em Super-8. Há um festival interessante, chamado Curta 8, que abre inscrições para o público em geral fazer pequenos experimentos em Super-8 (“tomada única”). Nas duas últimas edições do festival, eu participei da oficina e realizei dois curtas: Aceno (2022) e A cigana adormecida (2023). Embora tenham sido exercícios bem singelos, sem grandes pretensões, sinto que fui fisgado novamente pela realização e estou querendo voltar a fazer filmes. Tenho um roteiro de curta, desenvolvido a partir de um argumento do Eugène Green, que eu gostaria muito de realizar. É uma ideia que requer um pouco de estrutura, então eu precisaria aprovar o projeto em algum edital de fomento. A ver se consigo!

Imagens Daqui

Imagens Daqui

Marcos trabalha editando vídeos. Ele suspeita que sua esposa, Maria, o tenha traído. Mas a única prova que o rapaz tem é uma imagem; e ela não é tão clara. Este curta de Arthur Assumpção, sem nunca perder de vista suas referências, encontra formas próprias para trabalhar um mote recorrente no cinema: um homem obcecado pela imagem de uma mulher. É um trabalho de conclusão de curso rigoroso, hábil em lidar com seus personagens e articular seu repertório. Permite que vislumbremos um cineasta com grande potencial.

folha da sessão por Rafael Dornellas

Em Imagens daqui (Arthur Assumpção, 2023), tanto o início quanto o final ocorrem abruptamente. Há, porém, diferenças fundamentais; resultado de um caminho claro, percorrido entre um ponto e outro. Um caminho que produz a imagem, filma a imagem produzida e faz dela personagem principal. É também um percurso que questiona e esgarça essa imagem até aceitá-la enquanto terreno de mistério; até mergulhar em suas profundezas e vê-la se permutar em outros suportes – em virtual, em projeção. Se no plano inicial o rosto de Marcos (Warner Borges) se revela enquanto apresentação de um personagem, no final o movimento é um mergulho em outro tipo de meio. A fabricação da imagem se transforma. Em um, a câmera se limita a encenar os acontecimentos. No outro, uma tela surge como mediadora da cena; real e virtual se deixam contaminar.

No final dos anos 1990, o cineasta Abel Ferrara propunha um olhar acerca da imagem em que um apagamento das fronteiras entre real e virtual seria representado de forma cada vez mais desafiadora – nas sobreposições de planos, na adoção do digital, na perturbação da linearidade narrativa, no comentário dramático partindo do suporte fílmico. Lembremos, por exemplo, dos finais de filmes como Blackout (Abel Ferrara, 1997) e Enigma do poder (Abel Ferrara, 1998). Neles, as projeções mentais e memórias dos protagonistas são trazidas à superfície através de um emaranhado de planos sobrepostos que se chocam e, a partir deste choque, criam algo novo. Imagens daqui realiza um movimento semelhante ao propor, mais do que uma discussão acerca da veracidade da imagem e suas diferentes maneiras de representação, um mergulho operacional na imagem constituída, trazendo para o primeiro plano o que supomos ser uma importante questão de fundo.

Do início, em que vemos Marcos observando atentamente uma parede repleta de telas, somos levados a uma festa. Sobreposição: ao contrário da monotonia com que Marcos trabalha, o conflito inicial nos é exposto de modo a gerar mais dúvidas do que respostas (um casal é formado; homem e mulher no carro; sorrisos, diversão e possível flerte). A partir daí o filme seguirá à risca o sistema que propõe para si. As erupções dramáticas e o movimento narrativo são constituídos a partir da, e para a, imagem composta. O filme lida com a sua progressão como se a saída para um problema dado devesse ser sempre cinematográfica, como um termômetro estilístico narrativo.

Prender-se à sucessão dos fatos é certificar-se de que o percurso que deve sair de A e chegar em C acontecerá – e passará por B. Porém, esta pode ser também uma forma de evitar riscos e manter-se na segurança de um resultado final correto, mas amorfo; ou pior, disforme. Pensar profundamente no estilo de uma narrativa é mais complexo. De cara, notamos o estabelecimento da ação como algo relativamente simples. Um apartamento, um prédio residencial, uma noite de festa, um trabalho, um relacionamento e as possibilidades que se desvelam das duas figuras que acompanhamos.

O cotidiano de Marcos e Maria (Michelle Gabriolli) é filmado com calma, a uma distância que permite observá-los privilegiando a movimentação dos corpos no plano, a profundidade de campo, as distâncias dos elementos em quadro (aproveitando muito bem o espaço delimitado de um apartamento). As imagens, as projeções da aflição de Marcos em seus diversos suportes, atravessam o estilo do filme como a contraparte desse cotidiano, como algo em estado de ebulição. São elas que apontam as crises e caminhos possíveis na trajetória do casal. Durante suas interações no apartamento há poucos cortes. Algumas correções sutis de câmera mantém um enquadramento que se modifica a partir da localização dos atores dentro do quadro: um se distancia para lavar a louça, outro se levanta para pegar água na cozinha. 

Vêm da imagem (de uma câmera de segurança) o estremecimento do relacionamento e a dúvida (da traição, do que quer que tenha acontecido). E é de seu tensionamento que o presente narrativo será atingido. O confrontamento (“porque você me traiu?”) de Maria por Marcos finalmente ocorre, mas sua fala só é dita após um zoom (no copo de água sendo enchido) interromper a continuidade expositiva daquele ambiente.

Após a crise deflagrada, resta a Marcos se afogar em paranoia e na perda de confiança, materializada na obsessão pelas imagens que restam e alimentam esse estado crítico de confusão mental. Para Marcos, não dar mais pé do mundo real é se perder nas imagens da câmera de segurança de seu prédio, dos televisores de seu trabalho, das projeções de sua memória (uma suposta traição, uma briga); mas também nas imagens de um passado feliz (superexpostas, rudimentares, produzidas por uma câmera caseira). 

Mas não se pode esquecer que as imagens sempre mentem, escondem camadas infinitas, como nos mostraram Alfred Hitchcock, Dario Argento, Michelangelo Antonioni, Larry Cohen, Brian De Palma… ou mesmo Abel Ferrara, novamente ele, que executa sua vocação hitchcockiana em uma obsessão própria e escopofílica, empregada com consciência rara neste curta-metragem de Assumpção. Trata-se de uma espécie de pérola que nos faz querer voltar ao início e perscrutar o ecrã, imitando o seu protagonista hipnotizado pelos televisores, ou assombrado pela memória recente disparada e transformada pela força de uma imagem.

Imagens daqui lida com um alicerce referencial muito denso e complexo, mas escapa de possíveis armadilhas, passa longe da reverência receosa ou da citação desmedida e acredita no material produzido. Como em outras experiências bem-sucedidas na história do cinema, busca examinar o poder da representação cinematográfica: o que nos resta é o filme, o mistério de suas imagens e o efeito impactante de sua investigação.

 

Rafael Dornellas é cineasta, pesquisador e crítico de cinema. Um de seus filmes, Regresso (2017), esteve em duas sessões de estreia dos Estranhos Encontros: na presencial e na on-line.

Para esta quarta sessão on-line dos Estranhos Encontros, entrevistamos Arthur Assumpção. Ele é um roteirista e diretor de ficção e publicidade nascido em São Paulo. Sua filmografia de ficção é composta por três curta-metragens, que foram exibidos em alguns festivais pelo Brasil: As compras de Suzanne (2021), Raiz do grito (2022) e Imagens daqui (2023). É principalmente sobre este último filme que conversamos com Arthur, já que é o curta que está em cartaz nesta sessão 04 do site. Imagens daqui esteve no Festival Primeiro Plano 2023 (Juiz de Fora, MG), no Festival de Cinema Escolar de Alvorada 2023 (Alvorada, RS) – no qual Warner Borges (Marcos) levou o prêmio de melhor ator – e no IV Festival Beta (Rio de Janeiro, RJ) – em que recebeu os prêmios de melhor roteiro e melhor filme de ficção.

Como de costume, nas linhas a seguir você poderá ler sobre o processo criativo do filme e outros detalhes seus, mas não só. Poderá também acessar, mais detidamente, algumas das vozes e imagens que soam e ressoam para além da mente de Marcos: estão sobrepostas por todo o tecido fílmico.

  1. Se o tempo de Imagens daqui parece indeterminado, seu espaço é marcadamente brasileiro. Comente sobre a dimensão política que as gravações com as quais Marcos trabalha na ilha de edição trazem ao filme. Como percebe a tensão entre a retomada destas imagens de arquivo e aquelas que você mesmo produz para o filme?


O grande conflito inerente às imagens está na relação entre a realidade do fato registrado – pois uma câmera registra alguns instantes de realidade – e os significados e sentidos que uma imagem pode ter. Marcos vê sua esposa chegando com um rapaz ao prédio onde moram, o que significa que ela chegou acompanhada, mas não necessariamente que o tenha traído. Num mundo repleto de imagens, temos a tendência de nos sentirmos muito próximos de acontecimentos que se desenrolam por todo o mundo. Isso acontece devido aos meios de informação e ao mesmo tempo em que temos a inegável incapacidade de entendê-los por completo, o que não impede que esses acontecimentos influenciem nossas vidas direta e indiretamente. 

Dito isso, acredito que a dimensão política do filme envolve diretamente o universo das imagens históricas, que estão no nosso cotidiano e se tornam os símbolos da história humana a partir de quem domina os meios de difusão desses registros. A tensão entre as imagens de arquivo e as captações do filme está no espectador que vai conectá-las como bem entender, procurando por narrativas e significados a partir de sua compreensão do mundo e do próprio filme. Entre os temas citados pelas palavras e os objetos das imagens, estão: petróleo, meios de transporte, comércio exterior, política internacional e as torres gêmeas… E tanto o protagonista quanto o espectador são confrontados por esse universo misturado à história de uma relação romântica, relação da qual emerge uma tensão interessante ao filme. Na experiência humana, vivemos conflitos internos e assistimos a conflitos históricos; a relação entre esses dois tipos de tensão pode ser vista através de imagens da memória pessoal e de registros históricos. O mal-estar derivado dessas grandes confusões é um terreno que me interesso muito por explorar.

  1. Imagens daqui é repleto de referências e parte de uma das premissas mais trabalhadas na história do cinema: um homem obcecado pela imagem de uma mulher. Como se deu essa relação com o que há de referencial no filme? Como você encarou o desafio de visitar uma ideia que, de certa forma, já foi trabalhada tantas vezes na história do cinema?

Eu acredito que a sensação de uma obsessão com a imagem da mulher, no caso do Imagens daqui, se dá muito por conta da atuação e presença magnética da Michelle Gabriolli. Ela tem um rosto muito bonito, que flutua entre o doce e o peçonhento de um jeito fantástico. Isso cria no espectador um interesse muito grande por ela, de forma que qualquer um entende o porquê de o Marcos estar tão obcecado. Ele tem uma obsessão, que também é muito frequente no cinema, pelo registro; ele se aproxima de alguns personagens, como os de Um tiro na noite (Brian De Palma, 1981) e Blow-Up – Depois daquele beijo (Michelangelo Antonioni, 1966)… todos procuram respostas subjetivas em um registro material limitado. Eu acho que, de certa forma, não se preocupar com a carga histórica desses temas é o melhor jeito de explorá-los, afinal existem filmes de que eu gosto, mas o Marcos é obcecado pela Maria. E se ela virar um pastiche das mulheres de Um corpo que cai (Alfred Hitchcock, 1958) e do Obsessão (Brian De Palma, 1976), ou uma versão de Kim Min-Hee ou Gena Rowlands, ninguém vai se atrair pela imagem dela. Eu não encarei como um desafio retrabalhar uma ideia tão explorada porque não a escolhi pensando nisso; os temas que eu gostaria de explorar são os mesmos que muitos cineastas já abordaram por uma consonância do interesse pela produção de imagens. Se essa ideia foi visitada tantas vezes é porque tem muito a ser extraído dela, sobretudo no mundo contemporâneo. E espero que no futuro essa ideia continue a ser revisitada, pois o contexto da produção de imagens será, certamente, outro – o que vai exigir uma reelaboração por parte dos cineastas que a abordarem.

  1. Ao nosso olhar, parece haver uma facilidade maior do filme em lidar com os momentos mais marcados por referências, momentos em que ele parece falar mais abertamente do cinema. Mas chamam nossa atenção as passagens mais corriqueiras, em que podemos ver melhor o universo dos personagens, o cotidiano retratado do casal. Você enxerga essa separação? Como foi lidar com esses dois registros de encenação?

Existe uma separação formal entre o “universo das imagens” e o cotidiano do casal, principalmente no que se refere ao ritmo. Definitivamente foi um caminho tomado para que o dia a dia dos personagens pudesse ser alterado pela tensão de um grande conflito. Gosto muito de filmes e livros que trazem o cotidiano e conflitos simples, então acho que eu quis me aproximar um pouco disso nos momentos mais corriqueiros da vida do casal. É nesses trechos cotidianos que quem assiste pode encontrar mais algumas evidências de quem são os dois e o que os trouxe até este recorte que está sendo filmado. A cena do café da manhã é um grande exemplo disso. Ali foi incrível ver o trabalho dos atores, Michelle e Warner Borges, para “esconder” as muitas e muitas coisas que eles queriam trazer pros personagens. Minha participação nesse momento se dá na linguagem de cinema; ao filmar este trecho em um único plano para que a encenação possa tomar conta, quase como se a câmera tivesse sido esquecida ali na cozinha, gravando. Eu tenho o Robert Altman como principal referência para minha decupagem de ficção, mas com uma forma um pouco mais rígida do que a de seus filmes. Acredito que esses planos mais abertos valorizam demais a encenação dos bons atores, que usam o corpo todo para representar seus personagens. Assim podem confiar em takes maiores para entregar o que querem em cada cena, o que definitivamente Warner e Michelle conseguiram fazer muito bem.

  1. Você poderia comentar um pouco sobre o quanto o filme mudou ou não entre as ideias iniciais e o processo de filmagem e montagem? 

O filme foi pensado a partir da cena final. Eu queria experimentar uma montagem entre imagens de arquivo e imagens captadas; queria criar um universo de memórias do personagem, por isso escolhi um conflito que pudesse gerar a angústia do Marcos. Mas, originalmente, o espectador saberia se a traição aconteceu ou não, o que foi deixado para trás a fim de criar uma identificação maior com as reflexões do Marcos. A montagem dos meus filmes de ficção, por enquanto, encontra menos possibilidades de mudanças porque eu filmo com poucos planos e tenho, na minha cabeça, muita clareza do que eu quero fazer com o que filmo. Mas, é claro, sempre existem novas ideias nesse processo – muito por conta do talento dos montadores e das opiniões referentes a cortes anteriores ao final. Dito isso, a principal mudança da montagem no Imagens daqui foi uma grande redução na cena da discussão (cortamos algumas falas); houve também uma grande alteração na estrutura inicial, em que uma montagem paralela intercalaria o trabalho de Marcos e o de Maria. Essas mudanças no filme são o resultado da experimentação – não acredito que esse filme seja experimental, mas qualquer realizador de cinema experimenta opções de planos e cortes até encontrar aqueles efeitos e artifícios que mais o agradam. E esse processo de busca por imagens e seus significados é o mais interessante do cinema. De certa forma, também é uma montagem o que Marcos tenta fazer com as imagens de sua memória para encontrar respostas aos seus pensamentos.

  1. Quanto a processo criativo: como você costuma organizar as ideias no início de um projeto?


Dos projetos em que trabalhei, as ideias sempre surgem de uma única cena que se expande para uma construção maior – como foi o caso do Imagens daqui –, ou de uma estrutura que vai organizar o todo e centralizar a construção de várias ideias diferentes. O Imagens surgiu da cena final, que é inspirada no Enigma do poder (Abel Ferrara, 1998) e tem a escolha do conflito trazida do Drive my car (Ryusuke Hamaguchi, 2021) – dois filmes dos quais gosto muito. Mas, de maneira geral, acho que meus projetos são construídos para justificar pequenas coisas que eu gostaria de experimentar em uma ou duas cenas, ou uma estrutura narrativa geral que organiza diferentes ideias juntas. Porém, durante o processo de produção desse entorno, eu continuo criando em cima das outras cenas e começo a gostar delas tanto quanto das embrionárias.

  1. O que levou você ao cinema e o que incentivou/complicou sua vontade de fazer filmes? Como enxerga a possibilidade de continuar a fazer filmes independentes no Brasil?

Acho que muitas coisas diferentes me trouxeram ao cinema, mas o fator principal foram os filmes de que eu gostava. Desde criança eu sempre assisti a muitos filmes e acho que, naturalmente, comecei a me imaginar fazendo alguns deles também. O processo de produzir um filme é, além do mais, um grande incentivo, pois sempre que filmo qualquer coisa encontro ideias que gostaria de experimentar melhor, cenas que gostaria de filmar… e imagino personagens para histórias futuras. Eu quero continuar fazendo filmes independentes, mas no futuro gostaria de encontrar entradas dentro de grandes produções. Acho que os dois tipos de produção podem funcionar em paralelo. Admiro muitos cineastas que foram “contrabandistas” e conseguiam realizar seus projetos de cinema por dentro de contextos de produção comercial, como Brian De Palma, Carlos Reichenbach, Jean Garret, Robert Altman. Acho que me faria muito feliz seguir um caminho como esse e acredito que meus projetos poderiam se encaixar em formatos semelhantes. Mas a grande dificuldade do cinema para um realizador brasileiro é a “carreira paralela”, onde são necessários trabalhos em outras áreas da produção audiovisual – e muitas vezes outras áreas no geral mesmo – para sobreviver. Isso é um grande obstáculo no que se refere ao tempo e energia necessários para pensar o cinema de ficção, escrevê-lo e produzi-lo. No momento tenho trabalhado com publicidade, mas ainda este ano [2024] vou filmar um novo curta-metragem de ficção, além de estar trabalhando em um livro. Acredito que seguir esses caminhos paralelos é o que poderia me trazer satisfação profissional.

O Encontro

O Encontro

João está desencantado com a vida e passa seus dias trabalhando numa locadora. Sem aviso, uma nova cliente aparece e lhe faz uma proposta.

folha da sessão por Emanuela siqueira

Uma das entradas no dicionário Michaelis para o substantivo encontro é a “junção de pessoas ou coisas que se dirigem para o mesmo ponto ou se movem em sentido oposto”. Mesmo que em sentidos contrários, a junção pode acontecer e fico com isso em mente, porque é o que parece ocorrer com João e Ana no filme de Paula Negri.

A narrativa, em si, de Encontro parece ir no sentido contrário da lógica cotidiana, justamente por não ter pressa, como o ato de sentar-se para assistir a um filme. O plano de abertura nos posiciona numa sala ampla e velha, conhecida por muitos de nós que começamos a ver filmes em meados da década de 1990: uma videolocadora. A meia luz pode indicar o começo do dia ou, para quem assiste deste lugar do futuro, o abandono (daqui, a gente já sabe que esses espaços não existem mais). Olhamos pelas janelas, os carros passam e a vida acontece. Mas dentro daquele lugar há muitas vidas guardadas, à espera do clichê de um play. João (Gerrah Tenfuss) se junta à nossa nostalgia, abre as janelas e acende as luzes, a locadora está prestes a abrir e nós estamos lá dentro. Ana (Marina Cananda) é a primeira cliente do dia, um novo cadastro e uma nova perspectiva para João.

A coisa toda é simples em Encontro, como deveria ser. Apesar de ter menos de quarenta minutos, o curta consegue operar em duas partes distintas, mas que dançam juntas – ou correm lado a lado, como anuncia a cena final ao som do refrão icônico de Bizarre Love Triangle (New Order). Enquanto funcionário da locadora, João apenas recebe Ana, comenta o filme que ela escolhe e diz algo corriqueiro em tom divertido e que transmite algo no não-dito. Há outros clientes e outras conversas banais. O cartaz do filme Um beijo roubado (Wong Kar-Wai, 2007) fica desviando nossa atenção enquanto João e o colega de trabalho passeiam pelo lugar ao longo do dia. Seria nosso protagonista um pouco como a Elizabeth, do filme de Wong Kar-Wai? Alguém que tenta desesperadamente encontrar sentido para a vida recebendo e dando bom dia para as pessoas? Ele também terminou um relacionamento e carrega um desgosto nos ombros e nos olhos, mas diferente da personagem interpretada por Norah Jones, aqui João trabalha indicando narrativas – o que torna difícil aceitar qualquer uma para a própria vida, especialmente sob a perspectiva do (des)encontro.

Porém, pessoas dispostas dão play nos seus próprios filmes. No fim do expediente, Ana surge para fazer a devolução. Sim, o filme era bacana, hoje é sexta-feira, que tal sair por aí? João aceita e quem assiste está pronto para dar esse passo rumo à possibilidade desse encontro. Está tudo ali, todo o desconforto de ter que manter uma conversa em um carro com pessoas desconhecidas; João agora precisa sustentar esse bate e volta dialógico, as conversas sobre o clima e o trânsito, uma música indie legal e o poder de ser o espectador/ câmera que olha Ana de perto: ela sabe que João a observa. Daqui para a frente é o clichê que gostamos de acompanhar, aquelas conversas que sabemos onde querem chegar, um vinho barato, uma tensão que causa o desencontro momentâneo e a necessidade da adrenalina para termos o que esperávamos desde que acordamos dentro da locadora naquela manhã: uma boa história, simples e efêmera, de amor. 

Amor no sentido de pessoas se reunirem para fazer um filme que trate de histórias que coloquem pessoas para sentar e suspender a realidade por algum tempo. Encontro é uma possibilidade de ir na direção contrária da lógica corriqueira, do cinema narrativo hollywoodiano. Faz isso não apenas ao filmar justamente o real sem impor nenhuma grande redenção, mas, por outro lado, ao nos fazer pensar sobre como, onde e quando sentamos para assistir a um filme. O curta me colocou em uma posição de espectadora que ocupa um espaço complexo de (in)familiaridade. Foi difícil, por exemplo, esquecer que a videolocadora Cartoon do filme, onde trabalha João, faz um pacto biográfico com o real. Quando cheguei em Curitiba, em meados de 2010, já havia rumores de que locadoras como esta – que existiu por mais de três décadas e fechou sua última unidade em 2019 – iriam começar a baixar as portas. Todo mundo que quisesse assistir a filmes fora do circuito comercial curitibano ia até uma Cartoon. Como a espectadora lida com esse encontro entre si e as geografias afetivas do real, os espaços que hoje são apenas narrativas fílmicas? As ruas que o carro dos amigos de Ana percorrem e a calçada em que a dupla se senta e bebe vinho – possível de alcançar a pé da minha casa, andando menos de três quadras – me colocam para pensar que caminho deliciosamente nesse sentido contrário e que, em algum ponto, a gente se esbarra.

Encontro é um ponto de suspensão no tempo que nos lembra de algumas das coisas que moviam as pessoas até uma locadora, em busca de um filme. Talvez isso passasse longe do real na época da realização do curta, mas quanto mais o tempo se move do dia que João encontrou Ana, mais longa e distante se torna a rua em que eles correm para tudo ter existido e ter acabado em um beijo. Talvez o filme seja o tipo de clichê necessário para que continuemos dando play em histórias das quais sabemos pouco ou quase nada, mas terminamos com a sensação de ter esbarrado com aquelas pessoas – e só nós sabemos qual foi o ponto de intersecção. Que a gente não saia de dentro da videolocadora.

 

Emanuela Siqueira é tradutora e doutoranda em estudos literários pela UFPR. Escreve sobre cinema há mais de quinze anos em vários veículos e hoje em dia colabora pontualmente com o site Quadro por Quadro. Já fez parte de júri de festivais como Olhar de Cinema (Abraccine), Colors e Cinefantasy.

De seus primeiros planos, Encontro nos transpassa a ambientação nostálgica das locadoras de vídeos, espaços de convivência em que ainda era possível escolher filmes olhando seus cartazes (impressos, miniaturizados e plastificados) em mãos; podíamos tocá-los ao selecionar nossas melhores opções. Hoje são espaços praticamente extintos. A reconstrução singela deles é comovente –  com pôsteres de Resnais e Wong Kar-Wai e as falas recortadas de cenas sendo transmitidas na pequena TV no caixa. Chama a atenção o tempo em que acontecem as pequenezas do dia a dia: abrir as persianas da loja, testar chaves até encontrar a correta, ligar o computador. 

O cadastro que João (Gerrah Tenfuss) faz de Ana (Marina Cananda) é um ótimo exemplo; a espera tediosa e responder mais uma vez o nome, o CPF, o endereço, o número de telefone… Todo esse “tempo morto”, burocrático, é muito bem explorado. São momentos em que há sobras, brechas; um olha melhor para o outro, repara em algum detalhe, observa o caminhar, entrega-se aos gestos de modo ocioso.

De cara, a lentidão do filme desautomatiza nossos corpos hiperestimulados – no afã de respostas imediatas – e institui espaços vazios para o imprevisto; no caso, aqui o próprio encontro entre os dois protagonistas. Ainda que seja um ambiente fisicamente aberto a possibilidades, a locadora parece para João um espaço confinado e solitário antes da chegada de Ana. Vindo de um apartamento que divide com mais dois amigos, que quase não se veem no cotidiano, João pula de casa para o trabalho e de lá volta para casa, enclausurado em uma rotina não muito entusiasmante – ao contrário de seu colega, que parece estar sempre fora de casa, em bares e festas.

Pode-se entrever uma concepção do cinema como arte que envolve a troca e estimula as relações quando João recomenda um filme – O hospedeiro (Bong Joon Ho, 2006) – para que Ana o assista e, pouco depois, ela volta e comenta sobre a trilha sonora com ele. O cinema aqui atua como um elo entre os dois, seja pelo ambiente da locadora, seja pela ideia do próprio filme, que cola as experiências deles. O contrário do que poderia ser designado para o personagem que não sai e não se relaciona, valendo-se dessa arte de forma solitária. O diálogo entre cinema e vida também é palpável com o sugestivo cartaz de Um beijo roubado (Wong Kar-Wai, 2008), logo quando João deixa a locadora com Ana; ou quando a câmera para em um casal que se beija e acaricia enquanto discute qual filme escolher naquela ocasião.

Ao mesmo tempo que João não é discreto, também não é desenvolto o suficiente para ter uma atitude efetiva. Na realidade, sua expressão transmite um deslumbre imoderado, até um pouco cômico. De outro lado, Ana escancara todo o desejo no olhar: insistente, sedutor, desconcertante. Ela é a força motora que arranca do filme a ação. Isso fica nítido no carro, a caminho da festa, quando a câmera se aproxima dela e a jovem parece saber que está sendo olhada/ filmada. A câmera é o olhar dele, mas é ela quem seduz diante desse olhar. Na festa, mesmo quando escolhe permanecer do lado de fora para conversar, o casal é interrompido por um antigo caso de Ana, um tanto desinteressante, que se gaba sobre a grande televisão dele. Algo irônico de se discutir,  ainda mais ao entendermos o espaço da locadora como propulsor desse encontro. O que pensar das novas formas de consumo midiático focadas em avançados recursos tecnológicos, mas frequentemente incapazes de construir espaços de convívio para discussão e trocas?

Desfeito o nó que envolvia os dois, João entra na festa cheia de luzes coloridas e ao som de um remix que entoa “my heart is a ghost town”. No meio das pessoas que se enlaçam, o jovem procura o banheiro e vomita, como quem partiu numa viagem pela primeira vez e o corpo ainda não se acostumou. Desencontrados, o filme quase os separa definitivamente. E se a balada funciona como local em que não há troca de diálogos e predomina um aspecto hostil, tonteante (mais uma vez a clausura), ela é também uma catarse que marca a reação do corpo de João aos estímulos daquilo que está fora dele. A saber, o mundo, os outros, a própria Ana. É como se ele tivesse se deparado com um vórtice que o sacudisse e arremessasse para fora de sua rotina, cooptada por obrigações diárias e previsíveis.

Com o retorno de Ana, se inicia a caminhada do casal. E a cada aceleração dela, que o acompanha com o olhar, finalmente João tenta seguir no mesmo ritmo. Aos poucos, o que era lento se torna rápido e eles correm juntos. É como se Ana tivesse empurrado João e agora ele conseguisse libertar as próprias pernas, entender o movimento entre os dois e permitir que ele aconteça. É assim que o jovem consegue direcionar o corpo para beijá-la. A cena pode remeter a Denis Lavant, apaixonado enquanto corre ao som de Modern Love (David Bowie) em Sangue Ruim (Leos Carax, 1986). Mas aqui o casal corre junto e é esse ato dos dois se colocando em ação que evoca no filme a crença no próprio cinema – a arte do movimento por si só. É graças a ela que os dois resistem e se entregam ao que ainda adormece desterritorializado, para além do opressivo deserto do real.

  

Ivana Fontes é jornalista, poeta e mestranda em Literatura e Crítica Literária pela PUC-SP. Já fez participações de voz para a banda Cães de Prata – em singles e nos discos Nocaute e Cassius & Sonny –, além de faixas para a banda Pacamã. Publicou, também, poesias nas páginas Aboio e Ruído Manifesto.



Para nossa entrevista deste mês, tivemos a oportunidade de conversar com Paula Negri, diretora e uma das roteiristas de Encontro (2016). Paula cursou Cinema e Vídeo na UNESPAR e Letras-Português na UFPR. Atualmente, é sócia e colaboradora da produtora de filmes Asilo Febril. Dirigiu e roteirizou também Maria José (2015), que, como Encontro, retrata conexões, ilusões e desilusões amorosas. Além disso, dirigiu Flores (2016), um documentário sobre as ruas e flores do bairro curitibano Ahú, e tem um longa-metragem de ficção em fase de pós-produção: Amor em Agosto, que traz duas pessoas que se apaixonam ao trocar cartas. Atualmente, dirige um documentário sobre a Barragem Miringuava, em São José dos Pinhais, e seus efeitos na natureza e população ao redor da construção.

As respostas a seguir nos distanciam um pouco dos espaços e tempos peculiares ocupados por João e Ana; elas nos trazem vestígios do processo criativo do filme e da realizadora entrevistada, com suas particularidades:

 

  1. Em tempos de grandes sacadas narrativas e debates sobre a relevância de certos temas em detrimento de outros, chama nossa atenção Encontro partir de uma premissa tão direta, tão simples, mas conseguir ser um filme tão bonito e peculiar. Gostaríamos de saber: o que te levou a ele?

 

Havia dirigido meu primeiro curta-metragem, o Maria José, pouco tempo antes, e a vontade era de levar o filme seguinte para outra direção, explorar a decupagem após entender o que havia funcionado ou não no primeiro curta, em busca de um resultado melhor, ou ao menos diferente. A história foi se desenhando a partir da ideia de que boa parte da nossa vida é escrita, modificada, guiada pelos encontros com pessoas e experiências que vivemos com elas. O processo de escrita foi mais intuitivo, baseado em experiências pessoais, que eu considerei reais e significativas.

 

  1. Como surgiu o ímpeto de filmar uma locadora? O fim deste tipo de local já era algo previsível para você?

 

O apelo visual do ambiente da locadora teve um peso e foi um recurso utilizado na fotografia e arte do filme. Mas também poderia ser uma livraria, uma loja de conveniência: João deveria ter um emprego que não estivesse relacionado ao curso de História, que estava cursando. A intenção era indicar uma espécie de limbo, um desencontro consigo mesmo, a necessidade de trabalhar sem estar se sentindo realizado profissionalmente. O fim das locadoras era bastante previsível e, na época em que gravamos o filme, a própria Cartoon estava já com o segundo andar, antes cheio de prateleiras com DVDs e Blu-Rays, totalmente fechado e transformado em depósito. No entanto, não quis deixar evidente no filme a futura falência do local, mas sim retratá-lo com carinho, como quem o vivenciou e o guarda na memória.

  1. Falando sobre locadoras, pensamos na distribuição dos filmes. Ficamos surpresos ao descobrir que Encontro não circulou, não teve carreira em festivais. Vocês chegaram a enviá-lo ou não foi algo que consideraram fazer?

 

O filme foi enviado a um festival grande da cidade, mas não foi selecionado. Ele foi exibido algumas vezes a convite de espaços e mostras, ou exibições organizadas pela equipe, mas não houve um planejamento de distribuição prévio e eu sempre tive pouco empenho em procurar festivais que aceitassem a proposta e a duração do filme (muitos aceitam filmes de até tantos minutos, ou acima de tantos minutos, e Encontro está num meio termo com seus 37’). As inscrições nos festivais por vezes não eram gratuitas e não tínhamos nenhum incentivo para pagar por essas aplicações, mas o principal fator talvez tenha sido a falta de interesse da minha parte. Acabei engavetando o filme por alguns anos, embora sempre tenha enviado o link não-listado a quem me perguntasse sobre ele. Em 2019 percebi que era uma grande besteira não deixar o filme disponível ao público e postei o link do Youtube para ser divulgado. Me surpreendeu a resposta positiva que tive a partir desse momento, e pensei que deveria ter feito isso logo após ter finalizado ele, em 2015, já que alcançou tanta gente.

 

  1. Você poderia comentar um pouco sobre o quanto o filme mudou ou não entre as ideias iniciais (escrita do roteiro, primeiras imagens, intuições) e o processo de filmagem (locações, trabalho com o elenco e a equipe, colaborações, registros físicos de intenções criativas)? 

 

O trabalho de pré-produção foi muito extenso e prazeroso, a equipe estava bastante engajada e se reunia semanalmente, todos contribuíam com ideias para o projeto. Fomos às locações e fizemos todo o processo, storyboard, shooting board, etc. Acredito que por isso estávamos bem alinhados na produção. No entanto, foram dias exaustivos em que filmávamos a madrugada toda na rua e terminávamos a diária de manhã na locadora, num período de inverno curitibano dos mais frios. Muitos da equipe ficaram doentes e alguns não conseguiram finalizar as gravações. Quando terminamos, estávamos esgotados. Acredito que o resultado ficou próximo da ideia inicial por termos nos organizado bem durante a pré-produção, pois o processo de filmagem em si saiu do esperado em muitos aspectos.

  1. Agora conte mais sobre seu processo criativo: como organiza suas ideias no início de um projeto?

 

Se a ideia surge forte, eu já abro o Celtx ou Word e começo a escrever a cena 1 e aí vou escrevendo uma cena após a outra. Às vezes a cena seguinte vem no outro dia de manhã, tomando café, pois fico pensando sobre ela até terminar de escrever. Não gosto muito de revisar o roteiro, acho um terror, mas às vezes não tem escapatória… Encontro não teve tratamento ou revisão alguma, surgiu daquele jeito mesmo e foi o filme. Quando o roteiro está pronto, faço a decupagem em formato de storyboard, com uns desenhos bem simples, geralmente já visualizando alguma locação conhecida, ou tento encontrar algo parecido depois.

 

  1. O que levou você ao cinema e o que incentivou/complicou sua vontade de fazer filmes? Como enxerga a possibilidade de continuar a fazer filmes independentes no Brasil? 

 

Morei na França por um período e terminei o Ensino Médio lá. Eles tinham um programa, na escola, de aula extracurricular de cinema. Me abriu os olhos pra muita coisa. Quando voltei pro Brasil já estava decidida a fazer cinema. Entrei no curso em Curitiba, me mudei para cá e conheci no curso meu marido e alguns amigos que me acompanham até hoje, atualmente sócios da nossa produtora, a Asilo Febril. Temos encontrado alguns caminhos para fazer filmes, tentando conseguir incentivo, mas sem depender disso para realizar o que temos vontade. Temos, nos membros da produtora, uma equipe reduzida e que dá conta de produzir de modo independente, estando presentes nos filmes uns dos outros. No entanto, temos também outros empregos e por vezes temos que nos dedicar ao cinema nas horas livres, fins de semana, férias. Acho que o que complica é isso, não é fácil conseguir se dedicar somente ao cinema, fazer disso a única fonte de renda. Nós fomos nos adaptando, foi um processo, e estamos felizes com o modo como os projetos têm progredido.





O Regresso

O Regresso

Antônio, um velho fazendeiro decadente, vive com sua mulher em sua antiga fazenda no interior de São Paulo. Em uma noite, voltando para sua casa, ele atropela e mata um homem. Assustado, abandona o corpo e foge. O morto é irmão de Jóça, um velho morador local. Jóça deseja vingança pela morte do irmão. Francisco, homem de meia idade e filho de Antônio, retorna depois de anos para tentar resolver a situação. Francisco terá que lidar com o pai que não o perdoou por ter ido embora no passado, assim como deverá também conter a violência que aflora ao seu redor.

folha da sessão por miguel Fernandes

Não era um grande lançamento, de forma alguma; salvo engano, era a primeira vez em algum tempo que Regresso era exibido a um público — aqueles cinquenta (ou mais, ou menos) que se juntaram nos Estranhos Encontros. Disseram para mim, com modéstia, que “esse eu tinha de ver” (prenúncio de aprovação do filme, sem eu fazer ideia do que se tratava); e então, coisa surpreendente, o fato de Regresso rodar ali em meio a produções paulistanas sugeria algo de um fugere urbem involuntário na programação. Encontrando, porém, violência em vez de paz bucólica, regressava-se de São Paulo a Lucianópolis, cidadezinha enxuta de uns dois mil habitantes, onde o filme ocorre. 

Mas parece sempre que o êxito de uma obra assim só é êxito até certo ponto; só é êxito se ele for posto na balança com as circunstâncias em que foi obtido. “Pra um orçamento assim, nada mal”. E foi mesmo um filme de orçamento relativamente baixo e relativamente alto (baixo pelo resultado, alto pelo padrão de produção; vale reforçar, sem juízo de valor, que Regresso é um trabalho de conclusão de curso). Entretanto, não é bem essa a questão. Um bom filme deve bastar pelo que é, não pelo que poderia ter sido. Essa argúcia, esse controle, essa aspereza seca (que corresponde ao local poeirento e despojado, mesmo com o verde) que emanam de Regresso e de sua direção bastam para ver nele o resultado de um bom filme. 

De fato, quando começa, escutamos uns acordes familiares (Villa-Lobos), vemos uma paisagem estranho-familiar e, em seguida, um personagem igualmente estranho-familiar. Não sabemos quem é, propriamente, mas o conhecemos de algum lugar, talvez daqueles pistoleiros — sem partida, às vezes sem nome, muitas vezes sem destino — que andavam por outras bandas, em outros filmes.

Ele vem de algum lugar, para o qual havia partido por algum motivo, e para cá regressa, por outro. Sim, esse rapaz — que depois sabemos ser Francisco — talvez se insira de algum modo na tradição dos errantes que buscam justiça, ou vingança, ou conceder proteção; mas sua natureza, repleta de mistério e sugestões, é violenta. E, se nos for permitida alguma relação indireta, veremos que não é totalmente alheia à dos anti-heróis de um, digamos, Estranho sem Nome (Clint Eastwood, 1973) ou de um Rastros de Ódio (John Ford, 1956), em que Clint e John Wayne partem de algum lugar desconhecido, desempenham alguma ação, e, então, partem para algum outro lugar — igualmente desconhecido. Mas é complicada essa coisa da justiça… o terreno é tortuoso, a justiça é torta… foi Antônio, pai de Francisco — como vimos naquela primeira cena noturna —, quem matou por acidente o irmão de Jóça; é Jóça, por reação de vingança, quem quer matar Antônio; e é Francisco, acionado pela mãe (“ele veio pra ajudar”), quem media a “justiça” (não imparcial) nesse lugar. Ali, onde nem polícia nem prece de Deus chegam (“— Cê falou com a polícia, pai? — Polícia?!”), onde justiça e vingança se entrecruzam. 

Houve, então, um desequilíbrio nesse núcleo familiar; ou já ocorreu há muito, sabe-se lá porque, quando Francisco partiu. E daí se passa da tradição do western para a tradição de um sério drama familiar (como James Gray?) que, no entanto, não tem muito espaço. Talvez porque a cidade já não acolha mais a família como antes, talvez porque os pais, já velhos, há muito lá arraigados (“A gente não sai daqui. Não dá mais”), não tenham lá outra escolha… 

Regresso é, pois, um filme direto — digo, que vai ao cerne da questão sem rodeios — tanto quanto é um filme de sugestão. A sugestão tem seu melhor lugar quando há algum tipo de limitação (falamos aqui de um filme de vinte minutos, portanto não de uma longa-metragem); e essa limitação, bendita atiçadora das mentes criadoras-criativas, é o que dá razão de ser à concisão do filme. Pois se eu havia falado que há correspondência entre o despojamento do lugar e aquele da obra, é porque quase não há falas, quase não há planos dispendiosos, tudo é feito com discrição.

É notável, sem dúvida, a cena em que Jóça fala de seu irmão falecido, de seu passado, de sua família… enquadrado num plano único fechado, vemos esse homem em quem o tempo e o luto inculcaram um “rosto coberto de mato, impedindo qualquer visão pra dentro”, e uma “pele que parece de grossa casca de madeira”. Vemos, num dos únicos momentos do filme em que há longas falas, esse homem falar serenamente a respeito de seu falecido irmão, de sua vida pré-existente; o falecido pai que punha comida na mesa… sua voz concorre com o som dos grilos da noite. Nem seu capanga, que está ao lado, presta resposta a ele. Não há muito afeto; quase todos aí parecem impenetráveis (exceto pelo momento em que Chico, depois de ser cuidado dos ferimentos pela mãe, senta-se ao lado do pai).

Há mesmo, ao final, algo de vazio que me remete, guardadas as certas proporções, àquele John Wayne, àquele vazio sempre presente e resultante de um não-apaziguamento da coisa. Talvez, até mesmo, à futilidade da violência…? Pois veio Francisco, fez o que fez (justiça? Proteção? Com ou sem razão?), mas concluiu regressando — movimento perpétuo — para algum lugar, congelado no horizonte. Por isso é tão seca, quase sem ênfase, porém não anódina ou insignificante, a cena do tiroteio. Por isso é quase tão impenetrável a natureza desses personagens. Por isso, também, Francisco é um desses restless men. Não têm descanso. Nem polícia nem prece dá jeito.

 

Miguel Fernandes é tradutor e redator da revista de cinema Imagem e Palavra.

Para nossa primeira entrevista do site, conversamos com Rafael Dornellas, responsável pela direção e roteiro de Regresso (2017). O realizador é de Jaú, interior paulista. Cursou na ECA/USP tanto um superior em Audiovisual, quanto um mestrado no Programa de História, Teoria e Crítica do Departamento de Cinema – no qual estudou o cineasta Abel Ferrara (EUA) e algumas influências presentes em seu trabalho. Além de diretor e roteirista, Dornellas é pesquisador e crítico de cinema, carreiras que iniciou ainda na graduação. Foi também enquanto cursava Audiovisual que, em 2017, roteirizou e dirigiu Regresso. O filme venceu o prêmio Nascente (USP) e foi selecionado para alguns festivais; desde sua exibição em Moscou (2017), Tiradentes (2018), Itu (2018) e Rio de Janeiro (2018), até sua aparição mais recente em São Paulo, na sessão de estreia dos Estranhos Encontros (2023).

As perguntas e respostas a seguir nos permitem regressar a Lucianópolis e vislumbrar melhor o filme e sua criação; tudo por meio do olhar de quem o acompanhou do abstrato do sonho ao concreto da tela:

 

  1. Regresso nos evoca certas formas e remete a filmes que gostamos, o que nos faz pensar em seu trabalho enquanto crítico de cinema e no repertório adquirido enquanto cinéfilo. Poderia falar para nós sobre o seu trabalho com referências e como você sente que seu repertório influenciou o processo de concepção do filme?

 

Creio que meu repertório está em constante construção e revisão. Procuro agregá-lo positivamente ao trabalho de criação. Para mim, assim como o trabalho número um do escritor é a leitura, o do cineasta é o contato com o cinema, com os filmes — não necessariamente em um vórtice completista raso, mas no contato vertical e cuidadoso com as obras; na seriedade e curiosidade com a história do cinema e com a forma cinematográfica em suas variações e possibilidades. Isto posto, para mim a referência se torna parte natural do processo de criação. Procuro aceitá-la como parte do meu processo. 

No início do projeto, Regresso era muito mais referencial. Na ânsia cinéfila de realizar o primeiro curta-metragem, o impulso foi de abrir um leque de referências. Sair do ambiente urbano de São Paulo e voltar ao espaço do interior do estado. O western nos amparou. Para além do gênero, fazia-se presente uma ideia de tradição cinematográfica em nosso imaginário. Após um tempo, unimos a tradição do western com certas reinterpretações mais contemporâneas. Tínhamos, portanto, algo que partia de John Ford, Raoul Walsh, Howard Hawks, Andre De Toth, Allan Dwan e chegava em John Milius, Michael Cimino, John Flynn, John Carpenter, Clint Eastwood, James Gray. Porém, sempre procurei manter um distanciamento saudável para que não fosse sufocado por ele, e não me lembro da necessidade de citar uma obra quando filmava um plano ou decupava uma cena, por exemplo. O referencial, no caso de Regresso, esteve muito presente no início, na concepção do projeto, nas reuniões, nas escritas dos primeiros argumentos, até mesmo nas primeiras versões do roteiro. Após as visitas de locação e o início das filmagens, as referências passaram para um segundo plano, mantendo-se presente indiretamente.

Lembro de um evento na mostra dedicada à filmografia de Jacques Rivette no Centro Cultural Banco do Brasil, em que os debatedores falavam sobre o trabalho referencial do cineasta francês. Havia uma contraposição entre Rivette e Godard: se Godard, por um lado, gostava e se apropriava da citação direta, filmando cercado por um leque referencial mais bem delimitado, Rivette parecia abarcar todo o cinema em seus filmes, levando-o a uma síntese em cuja forma não vemos especificamente este ou aquele filme, mas sim uma ideia geral de uma história do cinema sempre presente — que muitas vezes parecia assombrar o cineasta e seus filmes.

 

  1. Vimos que o filme foi rodado em Lucianópolis. Era essa a intenção desde o início? A possibilidade de filmar a paisagem, em especial o céu – que aparenta desempenhar um papel fundamental no filme – influenciou a decisão ou essa foi uma questão que surgiu posteriormente? Conte um pouco para nós sobre a escolha dessa cidade e das locações, que parecem refletir e contribuir tanto para a atmosfera da história e das personagens. 

 

Desde o início o filme foi escrito tendo em mente uma cidadezinha do interior do estado de São Paulo. As primeiras versões do roteiro, porém, eram muito mais genéricas. As situações estavam todas ali, mas eu precisava entrar em contato direto com aquele universo, visitar os locais, pesquisar, viajar, para então descrever melhor as cenas e começar a pensar no ambiente, na decupagem, na dramaturgia inserida na geometria espacial. Sou nascido e criado no interior de São Paulo (vivi em Jaú até os 17 anos), então as primeiras ideias e imagens que vinham à mente eram de pequenos bairros afastados, pequenas vilas e distritos de Jaú. A pesquisa de locação começou em torno do que eu já conhecia: minha cidade da infância, uma fazenda da família de uma amiga que visitei algumas vezes, um bar nas imediações que podia servir de cenário para o tiroteio final. As conversas com os responsáveis pelas locações não foram para frente e ao mesmo tempo surgiu Lucianópolis (que é a cidade da família do João Pedro, assistente de direção no filme, e sempre esteve presente como possibilidade de locação). Em Lucianópolis encontramos um local mais acolhedor e engajado em torno das filmagens (o apoio da prefeitura, a presença da família do João, a noção mais profunda de uma comunidade pequena em que todos se conheciam e se relacionavam tornou real a possibilidade do filme), e só a partir da definição material do espaço das filmagens — e inúmeras visitas às locações — a versão final do roteiro foi se desenhando.

Era muito importante, uma vez definida a locação, que estivéssemos ali. Nas andanças e estadias em Lucianópolis pudemos notar mais detidamente o céu, para exemplificar com algo que citaram na pergunta. O céu do interior é diferente e sua presença marcante seria inevitável, uma vez que a concepção do filme trazia consigo algo de mítico nos espaços, algo a ser explorado naquela vastidão dos horizontes interioranos, sem deslumbramento excessivo, mas procurando inserir o drama daquelas personagens diretamente naqueles espaços. 

Para além do céu, muitas cenas eu reescrevi após ter a locação toda mapeada na mente (e em inúmeras fotografias tiradas em nossas visitas). A compreensão de um espaço na encenação do filme era quase uma obsessão minha enquanto realizador — aqui, algo que provavelmente trazia de uma constante revisão dos filmes de cineastas como Otto Preminger, F.W Murnau, Vincente Minnelli, Richard Fleischer, Joseph Losey, entre outros em que a delimitação do espaço filmado mediado pela decupagem (seja ela feita através de cortes ou pela câmera que perscruta o ambiente em planos alongados) resultava em uma exatidão por vezes quase matemática, em que linhas imaginárias poderiam perfeitamente ser traçadas da cena.

Voltando ao filme, e utilizando exemplos mais concretos, eu escrevi o roteiro com uma fazenda muito maior em mente, num estilo próximos aos casarões filmados em Os Inconfidentes (Joaquim Pedro de Andrade, 1972) ou em São Bernardo (Leon Hirszman, 1971). A fazenda que conseguimos era pequena, então repensamos os planos internos; no fim, muitas cenas internas acabaram sendo limadas na montagem. Ficou mais uma ideia de sombras e de espaços escuros (de uma tristeza primitiva entalhada na madeira estrutural da propriedade) do que necessariamente a amplitude inicialmente planejada.

A principal locação que influenciou diretamente a escrita, porém, foi o armazém (palco do duelo final). Ao visitarmos o local tudo acabou se direcionando para lá. O cortejo deveria, então, sair da igreja e passar pelo armazém (e deveria ser filmado de cima, em plano único). O duelo final foi todo reescrito e repensado a partir daquela locação. A princípio, o tiroteio era escrito como uma cena rápida, uma explosão de tiros que ocorria num bar do qual o protagonista sairia ileso. O armazém nos levou a repensar na cena como uma espécie de ato final, em que não somente uma explosão violenta revelaria um ápice na tensão do protagonista, mas toda uma relação entre aquelas figuras seria estabelecida conforme as mortes fossem acontecendo: para além das mortes e do perigo iminente, havia também a possibilidade instigante em desenvolver a relação espacial entre o que acontecia fora e o que acontecia dentro do armazém em meio ao tiroteio.

 

  1. Levando em consideração a realidade brasileira, você acha que há um dever do cineasta em fazer filmes que lidem com problemas da sociedade (temas socialmente relevantes, conflitos formadores)? Aproveitamos para pedir que nos conte sobre como aconteceu a distribuição de Regresso – e se foi dada prioridade para algum festival específico, por exemplo.

 

Acho que não há dever algum. Afinal, quais seriam os temas socialmente relevantes? Como delimitar e medir o que é mais relevante e o que é menos? Também não sou contra filmes cujo resultado perpassa por algum tema político, social. Creio que o filme deve ser o fim; é ele que irá apontar os caminhos. Fazer um filme para atingir um discurso ou subjugado por algum discurso (seja ele o mais relevante e bem-intencionado possível) me parece um exercício fadado ao fracasso. Se as construções formais e o apuro estilístico do filme não estiverem em sua estrutura, como uma síntese, em composição com o discurso (com o conteúdo por ele representado), o resultado final tende a desembocar em um exercício vazio. Muitas vezes nos deparamos com filmes cuja temática extremamente sensível e relevante é representada por uma construção formal rasa (até mesmo reacionária), quando não é representada por uma completa ausência de pensamento crítico em sua forma. São muitos os filmes que souberam trabalhar as urgências de questões sociais e políticas, assim como aqueles que não souberam trabalhar sua construção e acabaram somente na tentativa do discurso. Já os conflitos formadores e as narrativas de fundação são essenciais para mim, especialmente no projeto do curta em questão.

Sobre a distribuição do curta, não me lembro de priorizarmos este ou aquele festival. A ideia era passar o filme no maior número de espaços possíveis. Na etapa de finalização, o Festival Internacional de Curtas de São Paulo (Kinoforum) era um norte. No fim, não fomos aceitos. Regresso não passou em muitos festivais. Tirando o festival de Tiradentes (no qual o filme foi exibido em 2018), do Rio de Janeiro (2018) e de Moscou (2017), o filme circulou por espaços não óbvios. As melhores sessões foram justamente as dos pequenos festivais, em especial o festival de Itu (dezembro de 2018), a versão presencial dos Estranhos Encontros (em setembro de 2023), e a sessão histórica que fizemos em Lucianópolis (definitivamente um dos momentos mais marcantes em todo o processo de realização e exibição do filme). 

 

  1. Você poderia comentar um pouco sobre o quanto o filme mudou ou não entre as ideias iniciais (escrita do roteiro, primeiras imagens, intuições) e o processo de filmagem (locações, trabalho com o elenco e a equipe, colaborações, registros físicos de intenções criativas)? 

 

O filme foi constantemente se modificando desde a primeira versão do roteiro até o último plano filmado. No início ele era algo muito mais breve e referencial (em um roteiro mais esquemático), externalizando um desejo de sair da cidade, sair do apartamento, tentar fazer um filme universitário que não se parecesse com filmes universitários que víamos com certa frequência. O filme partia de certa ingenuidade e muita vontade. Ao longo do processo ele parece que foi se desarmando e tomando uma forma mais justa, mais conectada com as locações que encontramos. De uma primeira intuição de trabalhar o western, pensando muito nos filmes formadores norte-americanos e brasileiros (Ozualdo Candeias, sobretudo), fomos encontrando melhor as personagens e focando a dramaturgia e encenação no que havia de mais central para aquela família; a ação, a violência e o tiroteio, seria consequência. Chegávamos, então, em filmes posteriores que também partiam de código de gênero para então avançar em suas próprias camadas dramáticas: James Gray, Clint Eastwood (principalmente dos anos 90) e Carlão Reichenbach no Brasil.

O roteiro foi se transformando conforme avançávamos nas visitas de locação, nas conversas com o elenco, na situação material com a qual nos deparamos e nos obstáculos que dela surgiam. Há vários exemplos disso. O personagem de Jóça é um dos mais marcantes. A princípio ele era apenas um antagonista simples que cumpria seu papel na trama ali desenhada. Após as primeiras conversas com o ator Will Damas (uma das figuras mais marcantes que tive a oportunidade de conhecer), o personagem foi mudando até que se tornou quase que um segundo protagonista (alguém que temos de fato a impressão de conhecer ao longo do filme, que conta sua história com mais precisão e transparência). Escrevi o monólogo como um exercício e, aos poucos, o filme foi crescendo ao redor dessa cena. Percebemos que a morte de Jóça era cada vez mais trágica, o que era um risco extremo pois lá pelas tantas o filme passou a depender muito do monólogo. Felizmente Will era um grande ator. Uma curiosidade: Wil não gostava de decorar falas antes, nem de ensaiar. Nossos encontros se baseavam em conversas sobre o filme, sobre o personagem e sobre a vida (guardo até hoje, com muito carinho, as histórias incríveis contadas por ele durante todo o processo de realização do filme). Ele só nos mostrou o monólogo minutos antes de rodarmos a cena.

Outro exemplo foi a última cena rodada (uma cena de passagem, do meio do filme): Sebastião rememorando sobre o cafezal nos arredores da fazenda. A cena não existia no roteiro. Sebastião foi se tornando essa figura de alteridade, quase que trazendo um pouco o distanciamento de um coro grego, uma espécie de figura mítica e histórica inserida naquele contexto; alguém que dá voz ao passado e traz em sua enunciação e expressão corporal algo de incontornável.

 

  1. Agora conte mais sobre seu processo criativo: como organiza suas ideias no início de um projeto? A quais ferramentas recorre para isso? Compartilha algum registro seu com a equipe (para além do roteiro)? 

 

Meu processo sempre foi um pouco caótico. Muitas vezes tudo começa com uma imagem, uma cena de um filme, uma peça musical, um ponto específico de uma trama, e aos poucos as coisas vão se conectando em um emaranhado de pequenas histórias, pequenos pontos que se interligam, pequenas cenas. Às vezes a coisa vem em um plano, mas há alguma variação. Não há um padrão muito específico. O padrão mais metódico do meu processo criativo é o de estar em contato constante com o cinema, por isso quase sempre o processo de realização se inicia com uma cena de um filme, um plano, uma sequência, um personagem… Sinto a necessidade de estar em constante contato com o cinema, e isso quase sempre me leva a pensar em projetos de realização (muitas vezes esse processo é paralelo ao meu trabalho de crítico, ensaísta, pesquisador).

Uma vez iniciado um projeto, procuro recorrer aos mais diversos materiais que me coloquem em contato com aquele universo que pretendo representar (livros, filmes, pinturas, peças musicais) para, então, começar um longo e extenuante processo de escrita, geralmente partindo de um esquema simplificado e chegando em um resumo ou uma sinopse longa (muitas vezes se transformando em um texto corrido que pode ser considerado um argumento, detalhando cenas, descrevendo personagens, narrando o filme do início ao fim). Às vezes o roteiro se inicia em paralelo ao desenvolvimento da história e é nele que me detenho por mais tempo, pois quando escrevo um roteiro que pretendo dirigir, já penso nas imagens, nos planos e na decupagem: o roteiro passa a ser também um documento que norteará o trabalho de direção.

Ainda tenho dificuldade em compartilhar os roteiros e projetos que tenho desenvolvido. Sou um péssimo vendedor e um autopromotor pior ainda. Tenho alguns amigos próximos com quem mantenho contato e troco sempre que possível, mas toda a coisa de buscar financiamento, inscrição em processos seletivos, premiações, laboratórios, editais, tudo isso me deixa um tanto desestimulado. Tudo isso me parece muito distante de um pensamento verdadeiramente crítico, ou de um pensamento cinematográfico aprofundado: esse sistema de comissões, de editais, de laboratórios, de autopromoção, de networking, de projetos que passam por rodadas de negócios e premiações e laboratórios e mais editais, e vão sendo desnudados e descaracterizados a cada nova etapa, é algo extenuante. Esse sistema trata muito mal os realizadores, o público e, o que realmente importa, os próprios filmes. Sei que é parte do processo atual, mas cada vez que isso surge como grande parcela das possibilidades de realização acabo me distanciando um pouco do cenário.

 

  1. O que levou você ao cinema e o que incentivou/complicou sua vontade de fazer filmes? Como enxerga a possibilidade de continuar a fazer filmes independentes no Brasil? Pretende voltar a filmar?

 

Desde que me conheço por gente o cinema é parte essencial em minha vida. Sou aquele caso bastante clichê (tanto nas gerações de realizadores quanto de críticos, curadores, pesquisadores) do garoto cinéfilo frequentador assíduo do locadoras e, posteriormente (já em São Paulo), de mostras de cinema. O cinema (a música e a literatura também) sempre foi algo muito presente na casa dos meus pais. Lembro de ir muito ao cinema municipal em Jaú quando criança. Quando era adolescente, meu pai me apresentou aos cursos de cinema nas universidades (mais especificamente o da USP) e a partir de 2006 ou 2007 eu já sabia o que prestaria no vestibular (hoje meu irmão também está se formando em profissional do audiovisual).

O impulso da criação sempre esteve presente, tanto na vocação para a realização cinematográfica quanto na escrita. Nunca diminuí um em relação ao outro. Ambos são parte atuante em minha vida com o cinema. A universidade foi um caminho natural que possibilitou o desenvolvimento da prática e do pensamento cinematográfico; foi lá que encontrei minha turma e foi lá que me encontrei enquanto realizador, crítico e pesquisador.

Sobre a possibilidade de continuar a filmar, ao mesmo tempo que me incomodam certos processos de financiamento de filmes, vejo que o cinema se encontra muito presente em certos lugares específicos. É preciso estar atento. Em um universo de estagnação e marasmo há o cinema dos olhares cuidadosos demonstrados por pequenas pérolas filmadas através de meios muito particulares (cada um condizente com sua realidade), em processos igualmente cuidadosos e extremamente elaborados, dominando completamente tanto o que se filma quanto o aparato disponível para a filmagem: penso em “Já Visto Jamais Visto” (Andrea Tonacci, 2014), “La Fille de nulle part” (Jean-Claude Brisseau, 2012), “Adieu au langage” (Godard, 2014), “Wolfram, a Saliva do Lobo” (Rodolfo Pimenta, Joana Torgal, 2010), “Il Buco” (Michelangelo Frammartino, 2021), entre outros. Da minha parte, após realizar Regresso fui realizar outras coisas, me envolvi com a pesquisa acadêmica, fiz mestrado, publiquei ensaios esparsos, acabei indo trabalhar com audiovisual em outros segmentos, mas ainda desejo voltar a filmar. Vários fatores, infelizmente, fizeram de Regresso minha única experiência como cineasta. Após um certo distanciamento da realização, de um tempo pra cá algumas coisas se assentaram e meu radar tem se voltado novamente à realização de filmes. Alguns projetos estão tomando forma; continuo escrevendo, pesquisando e trabalhando para voltar a realizar em algum momento num futuro próximo, ou ao menos não tão distante.